segunda-feira, 30 de junho de 2008

ENSAIO: 1968: A herança esquecida

*Por Leonardo Fernandes e Lucas de Mendonça


Guerra no Oriente Médio, um processo eleitoral em primeiro plano nos EUA, crise financeira no centro do capitalismo mundial, levante revolucionário antiimperialista na Venezuela, Cuba e sua persistência pelo horizonte socialista depois de quase 50 anos de revolução, esquerdistas no governo de vários países latino-americanos, ascensão do poder conservador-nacionalista nos países da União Européia e no leste europeu, governos extremamente autoritários na Rússia e na China, aprofundamento das contradições sociais e da miséria na África e uma política econômica neoliberalista triunfante na maior parte dos países.
No Brasil, o PT se torna governo com Lula como presidente, abraçando o projeto neoliberal tão atacado por ele mesmo durante os governos que o antecederam. É assim que começa o ano de 2008, que marca os 40 anos como um dos mais polêmicos da história do século XX, o ano de 1968.

Lá atrás na história, o mundo assistia a guerra sangrenta no pobre país asiático, o Vietnã, e a vitória da Revolução Cubana na América Latina. Karl Marx, Lênin, Che Guevara, Mao Tse-Tung, Leon Trotsky, entre outros pensadores do socialismo, se tornaram referência para os diversos levantes populares, greves e manifestações em todo o mundo. 40 anos depois, as referências não desapareceram.

As guerras continuam existindo. Mas, parece que o mundo assiste toda a barbárie com apatia, desprezo e conformismo, ao vivo e em cores. Ora, de que valem e valeram as experiências históricas? Nenhum sentido faria falar de 1968 em tom saudosista, como falam a grande maioria dos grandes meios de comunicação do Brasil e do mundo. Faz-se necessário um debate profundo, na medida em que se percebem nas experiências passadas, os acúmulos, as vitórias e as derrotas dos movimentos que lutaram por liberdade e a emancipação por uma sociedade socialista, para o pleno desenvolvimento das capacidades humanas de produção e reprodução da vida e suas infinitas potencialidades.

De lá pra cá, obviamente, muita coisa aconteceu. No Brasil, era fundado em 1980 o Partido dos Trabalhadores. Começava a se articular o processo de transição democrática no país que viveu 21 anos sob o regime ditatorial militar.

O movimento “Diretas Já” ganhava força e em 1985 teríamos as primeiras eleições diretas, que elegia como presidente Tancredo Neves, que fatalmente não tomaria posse, morrendo em abril do mesmo ano. O ano de 1988 foi consagrado pela aprovação da nova constituição da república brasileira, marcada por contradições e por um claro acordo entre os setores conservadores da sociedade e as representações da classe trabalhadora, que por sua vez clamava liberdade, igualdade e justiça. Heloísa Greco, historiadora e militante de Direitos Humanos, falando sobre a Constituição de 1988 e a transição democrática, comenta: “Não acho que esse acordo representa nenhum avanço. Eu tento pensar por outro ângulo, que é o seguinte, tudo que se avançou do ponto de vista de conquista de democracia, cidadania, tudo foi muita luta da sociedade. Tudo. Nada foi no espaço instituído. Um avanço relativo, mas importante. Avanços conquistados por uma luta muito árdua dos movimentos. E lutas que já estão completando algumas décadas. Então nessa perspectiva os avanços se devem ao movimento popular, à sociedade organizada”.

No ano seguinte, o mundo assistiu à derrubada do Muro de Berlim, pondo fim à Guerra Fria e ao socialismo existente no leste europeu, nos anos seguintes. Era o fim da grande potência da União Soviética, um bloco formado por países que tentaram a transição ao socialismo desde a Revolução de Outubro de 1917, orientada e comandada por Lênin e pelo partido Bolchevique.
Anos depois, o mundo assiste em tempo real ao horror das guerras no Oriente Médio, em especial no Iraque, Afeganistão e Palestina, orquestradas pelo governo “democrático” dos Estados Unidos e pelo Estado sionista de Israel. As imagens de Guatánamo e Abu Ghraib, as prisões norte-americanas destinadas à prática de tortura e manutenção de suspeitos de terrorismo em condições desumanas, chocam toda a sociedade mundial.

Para o economista Luis Marcos Gomes, “o mundo hoje, comparado com 1968, é um mundo muito conservador e conformista. Apesar de toda essa história do Oriente Médio - que não é só o Iraque -, Palestina, Líbano... diariamente morrem no mínimo 100 pessoas, a maioria civis, e não há ainda uma onda internacional contra essa intervenção. Nenhum candidato à presidência dos EUA tem um compromisso firme de retirada imediata das tropas. Mesmo o Obama, que é considerado uma novidade, na ‘hora H’ não fala sobre. Porquê de alguma maneira esse candidato ainda tem respaldo da opinião pública”.

Na Venezuela, Hugo Chávez e a população rebelada pela miséria ali existente, iniciam a chamada Revolução Bolivariana, com forte atuação e solidariedade do governo cubano, numa tentativa de organização e construção do socialismo no século XXI, derrubando todas as teorizações pós-modernas sobre o fim das grandes narrativas históricas.

Quase 40 anos depois do Maio de 68 francês, o país protagonista nesta história elege Nicolas Sarkozy, um conservador nacionalista, que, em campanha, prometeu enterrar os conceitos e as idéias construídas nas lutas do Maio de 68, seguindo a tendência européia de adoção do poder direitista, verificado também em outras eleições, como na Itália, com a vitória do ultraconservador Silvio Berlusconi.

Brasil, anos de apatia

Depois de um processo de transição à democracia do Brasil, caracterizado por Luis Marcos Gomes como “uma transição limitada por cima, com acordo visível com os militares”, os anos, ou, a década que sucedeu a constituição de 88 e o processo de redemocratização do Brasil foram marcados pela implantação do neoliberalismo na política econômica brasileira. Esta foi inaugurada ainda no ano 1973 pelo ditador militar chileno Augusto Pinochet, presidente do Chile. Passando pelo “Fora Collor” e pelos dois mandatos consecutivos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, já nos primeiros anos do século XXI, Lula, figura historicamente ligada ao movimento sindical, símbolo do Partido dos Trabalhadores, chega ao poder do Governo Federal.

A “Carta aos brasileiros”, de 2002, chegava como um golpe nas ilusões da classe que esperava uma representação ativa em defesa dos seus direitos. Esta carta representava uma mudança substancial no programa político do PT, que passava a defender políticas assistencialistas para a classe trabalhadora, ou compensatórias, como preferem chamar os (neo)liberais, em substituição às políticas de reforma agrária e de poder à classe operária. Priorizava, portanto, o crescimento econômico baseado nos interesses do mercado e da especulação financeira daí conseqüente, nas políticas de favorecimento aos monopólios capitalistas multinacionais.

Para Luís Marcos Gomes, o PT foi se envolvendo ao longo dos anos com todo o aparelho do Estado, com toda a prática da chamada política pragmática. “’O negócio é vencer, não é colocar meu programa em prática, depois eu penso nisso’, e, assim, o PT também virou um partido da ordem. Então não temos mais dois projetos de sociedade. Passamos a ter um projeto só, com dois partidos disputando a hegemonia nele. A ponto de nós chegarmos aqui em Belo Horizonte, neste ano, de um líder peessedebista, como o governador Aécio Neves, e um líder petista como o prefeito Fernando Pimentel escolherem um pára-quedista de um terceiro partido – afim de que não haja essa disputa PT-PSDB - em função de seus interesses, para ser candidato a prefeito. A população não conhece, ele nunca fez carreira política e até foi acusado de se envolver nos escândalos de corrupção quando foi Secretário-Geral do Ministério da Integração Nacional”.

Nesse contexto, as centrais sindicais, orientadas e/ou comandadas em grande maioria pelo PT, mantiveram-se ao lado do governo e constituíram a base de sustentação das reformas neoliberais do Governo Lula. Com as centrais estudantis não foi diferente. A UNE – União Nacional dos Estudantes – grande protagonista da resistência contra a ditadura militar, apóia o projeto de reforma universitária do governo, que privatiza e mercantiliza a Educação Superior no Brasil em diversos âmbitos, demonstrando total atrelamento ao Governo Federal, inaugurando um período de profunda apatia política nos movimentos sociais brasileiros. Ainda segundo Gomes, pelo fato do PT ser um partido de sindicalistas, esta casta – a cúpula - de sindicalistas aderiu ao projeto da elite. “E isso foi transmitido em cadeia para o movimento sindical brasileiro. Ele não tem independência. Todas as correntes sindicais, CUT, Força Sindical, CGT, CTB, todas elas estão atreladas ao governo, todas. Porque todos estão na máquina. Por que eles vão combater um governo que emprega e remunera as pessoas deles?”.

O projeto neoliberalista, portanto, causou danos profundos inclusive no movimento dos trabalhadores, que tem um líder histórico dos trabalhadores hoje, tocando um projeto da elite, que piora em longo prazo as condições de vida e de trabalho da sociedade em sua totalidade em troca de assistências como as bolsas ofertadas pelo governo à população pobre, marginalizada pelo mercado.

Enquanto isso, todo o poder público é eliminado de forma discreta, “na minha avaliação isto está demonstrando empiricamente que o projeto da ditadura militar foi o projeto vitorioso. A ditadura veio para isso. Veio para poder modernizar de forma conservadora e acelerar o capitalismo. Esse é o projeto. E para isso precisava de quê? Precisava de outro grande crime. Talvez um dos mais graves de todos. Que é a destruição continuada do espaço público. A ditadura destrói esse espaço. Esse espaço não existe mais. Não existe nas ruas, não existe nos movimentos sociais, não existe nos sindicatos”, complementa Heloísa.

Ainda segundo ela, a nova ordem mundial “é o seguinte, ‘cada um por si, Deus por todos’. Um pouco como a Margaret Thatcher falou - essa frase dela eu acho de uma ferocidade absurda – ‘Não existe tal coisa que é a sociedade. Existem pessoas, enquanto indivíduos, enquanto famílias’. Ela determinou a morte da sociedade. É uma coisa absurda. Que é isso que nós estamos vendo.”

A crise econômica do século 21

Após um longo ciclo de expansão do capitalismo no período pós-guerra, o mercado se aprofunda numa grande crise, que revelou apenas seu início a partir de janeiro deste ano. Esta crise foi provocada pelo fenômeno da especulação financeira e pelas crises estruturais do capitalismo. Segundo Gomes, “às vezes um banco de investimento mantinha ativos reais e através de alavancagens, fundos e operações - sem com que ele aumentasse efetivamente esses ativos reais - passava a manipular 40 vezes o valor desses ativos. O que a gente chama de alavancar. Chega certa hora, o pessoal vai descontar os seus títulos e não tem riqueza real. Então os mercados começam a cair. Você é um americano que fez uma hipoteca da sua casa por 500 mil dólares e descobre que ela vale só 200 mil. E o banco vai lá e te toma e coloca não sei quantos milhões de casas pra vender e não há compradores”. Em conseqüência dessas operações econômicas, um prejuízo muito maior será socializado. “Daí os bancos centrais do mundo inteiro - principalmente dos países capitalistas centrais - que agem de maneira muito autônoma, já despejaram quase 1 trilhão de dólares pra conter a crise financeira, que não acabou e ninguém sabe a profundidade desse acerto, essa alavancagem tremenda”.

Esta crise se inicia no processo de desregulamentação do mercado e na especulação desenfreada, o que cria ações sem valor real. A crise, que até agora estava ocorrendo somente no âmbito financeiro, começa a atingir a economia real de todo os países, principalmente os “subdesenvolvidos”, que voltam a sofrer com uma brutal inflação. A prova disto é o rápido aumento do preço dos alimentos, causada também por outra crise, a energética.

O petróleo atingiu o chamado “Pico Petrolífero”, que é quando não há como aumentar mais a captação de petróleo e isto provoca uma crise pelo aumento da demanda de mercados como, por exemplo, a China. Isto torna o preço do barril cada vez mais caro, com previsões de alcançar o valor de 220 dólares o barril em poucos anos, e, atualmente, o preço do barril de petróleo atinge os 128 dólares. Para compensar este aumento se discutiu a adoção dos biocombustíveis, que o presidente Lula defende ferrenhamente, enquanto Fidel Castro, em suas recentes cartas, analisou e denunciou todo o processo que está ocorrendo atualmente, inclusive a super-exploração ocorrida nos latifúndios de canaviais com os cortadores de cana.A produção de biocombustível se torna rentável e ocorre uma valorização da terra para este tipo de produção, o que faz com que a produção de alimentos tenha de aumentar seu preço.

ENSAIO: 40 anos: 1968 e a tentativa de assalto ao céu

*Por Leonardo Fernandes e Lucas de Mendonça


O contexto mundial de 1968


Vinte e três anos após a derrota do nazi-fascismo pelas forças Aliadas na Segunda Guerra Mundial, os países europeus conseguiram se reestruturar graças à realização de políticas econômicas de bem-estar social, conhecidas como Welfare State, diante da destruição provocada pelo conflito inter-imperialista global. Tais concessões às classes populares por parte dos Estados nacionais, foram necessárias para o restabelecimento da ordem capitalista, que se estenderam pelas sociedades européias ocidentais no período do pós-guerra.


Na Espanha franquista, o movimento estudantil se organizou em torno de mobilizações contra o autoritário governo monarquista. Na Polônia, é montada uma forte estratégia repressora e violenta pela ditadura soviética para afastar o movimento estudantil da classe trabalhadora. Na Itália, as revoltas estudantis se iniciaram em 1966. Métodos pedagógicos e tradições eram contestados nas universidades, várias ocupações e manifestações se deram com o “maggio rampante” italiano, que iria terminar somente no outono de 1969.


No Oriente, a tentativa da renovação do marxismo de inspiração soviética durante a Revolução Cultural da China, iniciada em 1966, persistiu sem sucesso, enquanto a União Soviética continuava sob a orientação do stalinismo de desenvolver o socialismo em um só país, reforçando o planejamento centralizado da economia e o controle político total da sociedade pelos representantes da burocracia estatal-monopartidária, contrariando radicalmente a proposta marxista original da necessidade da internacionalização da revolução socialista através da organização democrática dos próprios trabalhadores. No Leste europeu, onde ocorriam imposições de políticas econômicas da Rússia via Comecon (Conselho para Assistência Econômica Mútua), Alexander Dubček fora eleito como Primeiro Secretário do Comitê Central do Partido Comunista da antiga Tchecoslováquia, questionando a “cortina de ferro” russa e propondo reformas para a construção de “um socialismo com rosto humano”, na tentativa de reformar o Estado e as estruturas internas do Partido, no sentido de democratizá-los, em oposição ao autoritarismo e ao despotismo vigente.


Os EUA continuavam com a política econômica keynesiana, com forte presença e intervenção do Estado na economia, em plena Guerra Fria com a URSS e com a discriminação racial fortemente presente na vida dos americanos, o que culminou com o assassinato do líder do movimento de emancipação dos negros, Martin Luther King, no dia 4 de abril de 1968, no Tennessee, quando este defendia a “Campanha dos Pobres”, que tinha como objetivo a ajuda e assistência econômica às comunidades pobres dos EUA.


Nas Olimpíadas do México, no evento que ficou conhecido como “Massacre de Tlatelolco”, cerca de 500 jovens estudantes que lutavam por liberdades democráticas foram massacrados pelas forças do governo. Os atletas olímpicos estadunidenses Tommie Smith e John Carlos, ouro e bronze, respectivamente, nos 200 metros rasos, usavam luvas pretas nas mãos, levantaram para cima os punhos, cabisbaixos e realizaram o cumprimento Black Power, dos Panteras Negras, durante a premiação, o que os levou a serem afastados do Comitê Olímpico Norte Americano.


Enquanto isso, a brutalidade da política do governo estadunidense exterminava a população do Vietnã. Esta sociedade, que resistia armada na guerrilha comunista liderada por Ho Chi Minh pela libertação nacional da ocupação japonesa e a independência de sua metrópole, a França.


As imagens da sangrenta guerra imperialista contra o pobre país oriental correram o mundo, gerando mobilizações de grandes proporções e um sentimento antiguerra nos EUA e em todos os povos do mundo.


Os países periféricos do capitalismo imperialista das superpotências - conhecidos então como “Países do Terceiro Mundo” continuavam subordinados às grandes economias de países do norte (Primeiro Mundo), principalmente na África, Oriente e Extremo Oriente. A América Latina não fugia à regra. Os países latino-americanos seguiam, em sua maioria, subordinados ao imperialismo norte-americano com as sangrentas ditaduras militares que sufocavam todas as tentativas de transformação revolucionária antiautoritária, democráticas ou socialistas. Enquanto isso, no Brasil, o AI-5 - Ato Institucional Número Cinco - que fechava o Congresso Nacional por prazo indeterminado (no total, foi quase um ano) inaugurava um período em que o cerceamento e a supressão de liberdades democráticas passava a estar previsto em lei, bem como o terrorismo de Estado, que intensificou as torturas, os assassinatos, as prisões e os “desaparecimentos” de militantes.


Em meio à intensificação das políticas autoritárias na América Latina, a famosa e polêmica ilha caribenha, Cuba, continuava remando contra a maré capitalista ocidental em seu processo revolucionário de libertação nacional dos EUA e de tentativa de construção do socialismo, mesmo sob intensos ataques à sociedade cubana via utilização de ofensivas militares, políticas, ideológicas e o bloqueio econômico que permanece até hoje. Esta revolução inspirou grande parte dos movimentos libertários de todo o mundo, que propagou fotos em cartazes do falecido intelectual e guerrilheiro comunista internacionalista, Ernesto ‘Che’ Guevara, assassinado covardemente em 9 de outubro de 1967 por forças militares bolivianas orientadas pela CIA que o haviam capturado na selva.


Um mundo embalado ao som contestador do beatle, John Lennon. Um mundo com cheiro de pólvora e sangue fresco. Um mundo conectado pelo globalizante sistema de televisão, com olhos voltados para as guerras e opiniões divididas pela frieza de dois impérios. Em 1968, o céu estava vermelho.

A Primavera de Praga

A culta cidade de Praga, terra natal do escritor Franz Kafka, é tomada pelo descontentamento da intelectualidade com as políticas autoritárias do stalinismo praticado pelo Partido Comunista da Tchecoslováquia no governo do país, que retiravam todas as liberdades políticas, econômicas e artísticas que fossem contra a imponente ordem russa.


No Partido Comunista Tchecoslovaco, um grupo de intelectuais formulam propostas para promover a desestalinização do país, retirando os vestígios de autoritarismo e despotismo, considerados por Alexander Dubček, então secretário-geral do PCT, como aberrações no socialismo. Este líder político acreditava na possibilidade de uma economia coletivizada e uma política democrática aos moldes ocidentais. Sendo assim, a Constituição foi revista e seria garantida a liberdade de organização (fim do monopólio partidário), liberdade de imprensa, independência do poder judiciário e a retomada da tolerância à religião. A população apoiou as reformas e se organizou pela objetivação das medidas que promoveriam as liberdades civis e o processo de abertura política.


Em reação à luta popular, que contava com o apoio da classe operária tchecoslovaca e ficara conhecida como a “Primavera de Praga”, a burocracia da URSS, temendo perder o controle político-econômico sobre um país socialista independente e potencialmente influente, utilizou do Pacto de Varsóvia (firmado pelos principais países da URSS) para invadir a cidade de Praga com milhares de tanques, com fins de suprimir a situação revolucionária. Dubček foi enviado à Moscou e, em seguida, isolado do cenário político sendo forçado à renúncia. O massacre ali produzido fora assim como o de 1956, quando houve a invasão de tanques soviéticos na Hungria e na Polônia, na Comuna de Gdansk, onde classe operária e o movimento estudantil unidos lutavam pelo verdadeiro socialismo, com o poder democrático vindo dos conselhos operários e uma economia socializada e gerida pelos próprios trabalhadores.


A ditadura de um partido só, voltou a vigorar e, conseqüentemente, todas as reformas foram canceladas. Um jovem chamado Jan Palach ateou fogo sobre si mesmo em manifesto contra a perda das liberdades. Milan Kundera, escritor reconhecido internacionalmente, retrata no livro “A insustentável leveza do ser”, o romance de dois casais tchecoslovacos no contexto histórico deste ano em que os povos lutaram pela verdadeira liberdade.


O maio de 68 na França

As transformações culturais e demográficas provocas pelo período do pós-guerra na França marcaram a década de 60. Com uma população incrivelmente rejuvenescida após o que ficou conhecido como “baby boom”, a juventude adquiria uma força inédita nas relações sociais da França de 1968. Sufocada por um país ainda marcado por valores tradicionais e pela rígida moral francesa, a geração do “baby boom” aspirava autonomia, liberdade e emancipação.


Em 22 de março, após a prisão de um militante da Juventude Revolucionária Comunista durante uma manifestação contra a Guerra do Vietnã, um grupo de estudantes invadiu a reitoria da Universidade de Nanterre. O grupo ficaria conhecido como Movimento 22 de março, e teria como um dos seus líderes, o jovem franco-alemão Daniel Cohn-Bendit (conhecido como “le Rouge”, ou, “o Vermelho”), que hoje é membro do Partido Verde com mandato no Parlamento Europeu. A resposta do poder viria em 27 de abril com a prisão de Bendit e o fechamento da Universidade de Nanterre em principio de maio. A partir daí, o movimento tomou as ruas e as universidades de Paris, chegando ao seu ápice no dia 10 de maio, a famosa “noite das barricadas”, com forte enfrentamento dos jovens com a polícia francesa. O conflito estava explícito nas ruas de Paris, com bombas de gás lacrimogêneo vindo das forças reacionárias e paralelepípedos alçando vôos vindo das forças libertárias.


Os operários tomaram partido pela luta dos estudantes e centenas de fábricas foram ocupadas. No dia 13 de maio os trabalhadores convocam a greve geral, que levou cerca de 10 milhões de trabalhadores à paralisação. Diversos setores da sociedade francesa estavam de alguma forma ligados ao movimento que contestou o poder, as tradições e a cultura vigente, com várias intervenções com cartazes, boletins, jornais, grafites, frases de efeito e pixações, feitas por distintas organizações como os situacionistas e os anarquistas, agrupamentos trotskistas e maoístas e o enfrentamento direto com as forças do governo. O general veterano, Charles de Gaulle, então presidente, chegou a abandonar o país por um curto espaço de tempo, enquanto os estudantes declaravam a anarquia. O regime tremeu; porém, na volta do general De Gaulle, apoiado pelo exército, tudo iria mudar. O Partido Comunista Francês (PCF) e os sindicatos conclamavam os trabalhadores a voltar ao trabalho enquanto novas eleições foram convocadas. A vitória dos conservadores representou um fracasso pela falta de um projeto político revolucionário das organizações da esquerda francesa, que se encontrava sob hegemonia do PCF, de orientação stalinista.

O Brasil e a Passeata dos Cem Mil

Rio de Janeiro, 28 de março de 1968, morria o estudante secundarista Edson Luís durante uma repressão policial a um protesto em frente ao restaurante “Calabouço”. 50 mil pessoas, entre trabalhadores, estudantes, intelectuais e artistas, foram acompanhar o enterro do jovem. Desde o início da ditadura militar, os conflitos entre estudantes e as forças policiais eram diárias nas ruas das principais cidades do país. No início desta guerra ao regime, a juventude configurava a mais forte oposição aos militares, dado que os políticos progressistas haviam sido cassados.


Em 26 de junho, foi realizada a Passeata dos Cem Mil, que contou com a adesão de parte dos setores religiosos, que exigiu o fim da censura, a redemocratização e o fim da repressão militar. A reação veio com o Comando de Caça aos Comunistas, o CCC, grupo de extrema-direita que, apoiado pelo regime militar caçava, atacava, torturava e assassinava qualquer sujeito considerado subversivo, entre eles, jornalistas, atores, músicos, líderes estudantis, intelectuais.
Mesmo com a proibição de greves durante o período de ditadura militar, a classe operária mostrava sua força perante o regime com as grandes greves dos metalúrgicos em Osasco/SP, que só terminaram com a invasão de tanques do exército e a paralisação e ocupação de fábricas realizadas por 16 mil operários, em Contagem/MG.


Os estudantes tentavam se rearticular. Em outubro, no 30º Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE) 1.200 estudantes foram presos, gerando mobilizações em todo o país. O coroamento do poder militar veio em 13 de dezembro com o Ato Institucional Número 5, o AI-5, que decretou o fechamento do Congresso Nacional e tornou legal a legislação por decreto-lei. Pode-se dizer que o ano de 1968 começou no Brasil em 28 de março e terminou em 13 de dezembro, quando todas as liberdades foram de uma só vez aniquiladas pelo poder autoritário.


A próxima movimentação de massas no Brasil viria a ocorrer somente em 1970, com o início do ciclo de lutas operárias no ABC paulista e com o movimento “Diretas Já”. Estas lutas culminaram com as concessões dos militares para o processo de redemocratização do Brasil, com a Constituinte, e as eleições diretas de 1985, dando início aos anos 90, marcados pelo triunfo da política neoliberal. A retomada neoliberal marcou uma profunda apatia política, que dura até hoje nos diversos setores da sociedade brasileira.